Adolescência: o que se passa realmente dentro do seu filho e o que pode fazer.

Um guia clínico para compreender a adolescência, do caos emocional normal aos sinais que merecem atenção profissional. 

Já não o reconhece. Num dia ri convosco; no seguinte, olha para si como se fosse um obstáculo. Dorme horas a fio, vive com os auscultadores sempre nos ouvidos, e oscila entre precisar muito de si e não querer absolutamente nada consigo.

Se isto lhe soa familiar, bem-vindo à adolescência!

A boa notícia: a maior parte do que está a experienciar é completamente normal. A notícia mais difícil: a adolescência é uma das fases de desenvolvimento mais complexas e exigentes da vida de uma pessoa, e compreender o que está realmente a acontecer pode fazer toda a diferença para o seu filho, e para si.

 O que é, afinal, a Adolescência?

A adolescência é a ponte de desenvolvimento entre a infância e a idade adulta, entre a dependência e a autonomia. Enquanto conceito, é surpreendentemente recente: a infância só surgiu como fase de vida distinta no século XVI, e a adolescência tal como a conhecemos hoje, apenas no século XX. Antes disso, um jovem de 10 anos e um adulto de 25 podiam sentar-se na mesma sala de aula.

O que torna a adolescência tão particularmente intensa é que envolve uma reorganização completa da personalidade, impulsionada por três forças simultâneas: as mudanças biológicas (puberdade), o desenvolvimento intelectual (o surgimento do pensamento abstracto) e as novas exigências sociais (autonomia, identidade, amor). Em conjunto, estas forças criam aquilo a que chamamos a Crise Emocional do Adolescente, não uma patologia, mas uma convulsão necessária.

Por que é tudo tão intenso? As três dimensões da mudança

1. Biológica:  o corpo e os seus impulsos

A puberdade introduz impulsos sexuais e agressivos que, pela sua própria natureza, não podem ser vividos dentro da família. Este é o motor da oposição e da rebeldia: o seu filho não está a tentar magoá-lo, está, literalmente, a separar-se de si para crescer. A psicanálise designa este processo como a segunda fase de separação-individuação (a primeira sendo o famoso "não" dos dois anos).

Esta mesma força biológica empurra-os para o grupo de pares, que se torna a nova casa emocional: um lugar para novas identificações, apoio mútuo e exploração segura dos impulsos.

2. Fisiológica: habitar um corpo em transformação

O corpo que era familiar torna-se estranho. Os limites mudam, o reflexo no espelho muda, e com ele surgem questões profundas de identidade e autoimagem. Esta incerteza corporal toca também a identidade sexual, o que explica por que alguns adolescentes desenvolvem dificuldades com a identidade de género ou perturbações alimentares. Não são simples "modas": são frequentemente expressões da dificuldade em aceitar um corpo que está a tornar-se sexual.

3. Neurológica e mental: um cérebro em reconstrução

Novas sinapses cerebrais estão a ser construídas o que explica, em parte, porque os adolescentes precisam de dormir tanto. Ao mesmo tempo, o desenvolvimento do pensamento abstracto abre todo um novo mundo de questionamento: Quem sou eu? Quem quero ser? Quanto me amo? Quem quero amar?

Este é um trabalho psicológico real e profundo e exige tempo, espaço e tolerância.

 O que os Adolescentes estão a processar: perdas e ganhos

A adolescência implica um luto genuíno. Os adolescentes precisam de elaborar:

·      A perda da relação de infância com os pais, as figuras idealizadas e omniscientes da infância são gradualmente destituídas. Isto manifesta-se frequentemente como depressão, ou momentos de tristeza profunda.

·      A perda do corpo de criança e, com ela, a perda da bissexualidade psíquica que caracteriza a infância (em que a criança se vive como sendo simultaneamente rapaz e rapariga). Esta transição pode desencadear incerteza de género ou, em alguns casos, perturbações alimentares, uma forma de recusar "crescer" para um corpo sexual.

Mas há também ganhos reais: uma identidade nova e mais rica começa a formar-se através do grupo de pares, do amor e da descoberta gradual de quem se é verdadeiramente.

 Normal vs. Preocupante: quando deve preocupar-se

A adolescência normal inclui:

·      Altos e baixos emocionais

·      Oposição e rebeldia

·      Afastamento da família, proximidade com os pares

·      Momentos de baixa autoestima

·      Períodos de tristeza ou ansiedade

·      Comportamentos de risco e acting-out (se transitórios)

·      Questionamento da identidade, sexualidade, valores

Sinais que merecem atenção profissional:

·      Depressão persistente ou pensamentos suicidas

·      Automutilação (cortes, queimaduras)

·      Perturbações alimentares graves (perda significativa de peso ou restrição)

·      Dependência de álcool ou drogas

·      Isolamento social que vai além do afastamento normal

·      Episódios psicóticos ou perda de contacto com a realidade

·      Ansiedade intensa e prolongada ou ataques de pânico

 Se reconhecer algum destes sinais, procurar a orientação de um psicólogo clínico ou psiquiatra não é uma reacção exagerada, é precisamente a resposta correcta.

Os três grandes desafios da Adolescência hoje

1. Tecnologia e redes sociais

Os adolescentes de hoje são nativos digitais, nós, os pais, somos imigrantes digitais. A investigação mostra consistentemente que a ligação digital permanente reduz a tolerância à frustração, a gestão da impulsividade, o pensamento criativo e a capacidade de estar só, todas capacidades essenciais para o desenvolvimento saudável durante a adolescência.

As redes sociais, em particular, apresentam um duplo perigo: substituem o grupo de pares físico de que os adolescentes tanto precisam, e fomentam a comparação com avatares idealizados e filtrados em vez de relações reais. O resultado, como vários investigadores têm documentado, é o aumento da ansiedade e da depressão, particularmente nas raparigas.

A capacidade de se entediar, de se sentir só e de tolerar esse desconforto não é um problema a resolver com um ecrã. É, de facto, uma condição necessária para o pensamento criativo e o crescimento emocional.

2. Género e identidade

A flutuação da identidade é normal na adolescência é, aliás, o ponto central. A identidade sexual e a preferência amorosa estão em movimento. É também completamente normal que a intimidade no início da adolescência envolva o mesmo sexo: os adolescentes procuram primeiro um espelho, alguém semelhante a si, antes de conseguirem enfrentar a estranheza do diferente.

O que é clinicamente importante é que este processo natural de descoberta tenha tempo e espaço para se desenvolver. A pressão cultural ou política para nomear, definir ou intervir medicamente na identidade de um jovem antes de este processo ter corrido o seu curso, incluindo o uso de bloqueadores da puberdade ou tratamentos hormonais antes da idade adulta, comporta riscos sérios, tanto físicos (fertilidade, desenvolvimento neurológico) como psicológicos. Um psicólogo clínico pode ser um aliado fundamental para ajudar um jovem a navegar esta incerteza sem se precipitar em conclusões.

3. O peso do mundo

Ansiedade climática, guerra, instabilidade global, os adolescentes de hoje levam estes desafios muito a sério, porque é o seu futuro que está em jogo. Mas há também uma dimensão clínica nisto: o mundo externo pode tornar-se um refúgio psicológico face ao trabalho mais íntimo e desestabilizador da adolescência. Quando um adolescente se torna intensamente focado em causas globais, vale a pena perguntar gentilmente que ansiedades internas também podem estar à procura de expressão.

Para os Pais: como navegar este percurso juntos

Ser pai ou mãe de um adolescente é genuinamente paradoxal: eles precisam que fique perto enquanto os deixa ir. Precisam dos seus limites e da sua flexibilidade. Da sua autoridade e do seu humor. Alguns princípios práticos:

·      Normalize o caos. Os altos e baixos deles não são um sinal de que algo está errado, são o trabalho da adolescência. Lembre-se da sua própria.

·      Encontre a distância certa. Mostre interesse, mas respeite a privacidade. Faça perguntas, mas não interrogue.

·      Limite os meios digitais e encoraje activamente a presença, o desporto, o contacto social, a leitura, o tédio criativo.

·      Não priorize o sucesso académico em detrimento do desenvolvimento emocional. Muitos adolescentes desenvolvem ansiedade, sintomas obsessivos ou inibição porque não há espaço para o trabalho interior que a adolescência exige.

·      Estabeleça limites, mas negocie. A rigidez absoluta não funciona melhor do que a permissividade total.

·      Confie neles. Algumas coisas dependem de si; outras não. Faça a sua parte e depois confie no processo.

E em caso de dúvida, procure ajuda. Um psicólogo clínico que trabalhe com adolescentes pode ser um apoio fundamental para o seu filho, e para si.

 Uma nota final

A adolescência não é um problema a resolver. É uma transformação a acompanhar.

Os adolescentes que a atravessam melhor não são os que nunca foram deixados lutar, são os que tiveram adultos à volta que compreenderam o que estava a acontecer, que se mantiveram firmes sem sufocar, e que confiaram que a tempestade passaria.

Vai passar.

 

Rita Marta é Psicóloga Clínica, Psicanalista e Psicoterapeuta na Clínica de Saúde Mental Mensana, em Lisboa. Trabalha com adultos, adolescentes e crianças, e é a fundadora da Mensana – Mental Health.

Para marcações ou questões: www.mensana-mentalhealth.com.

Previous
Previous

Adolescence: What's Really Happening Inside Your Teenager,And What You Can Do

Next
Next

Ela (testemunho de uma Psicanálise)