Ela (testemunho de uma Psicanálise)
Photo by Carina Alentado. Instagram
Entro dentro da sua porta, pintada de branco e com linhas finas. A hora passa a correr e por entre conversas e neste corte e costura das palavras, apercebo-me da sua fortaleza. Com um olhar doce e cheio de esperança dá as boas-vindas às minhas fragilidades.
Senta-se com calma, com uma calma tão simples e natural que me deixa no conforto do seu colo. Ela, que me aperta a mão de cima para baixo, com aquela força e firmeza de quem agarra a vida. Ela, que com a sua sabedoria e interpretações, lá vai abrindo caminhos a um coração por vezes fechado.
Neste espaço de construção, ensina a sua arte de ouvir, compreender, agir, mas acima de tudo pensar. Saber pensar, essa arte que ela ensina. Pensei que era mais fácil pensar. Pensar na viagem das emoções, é como criar uma história com princípio, meio e fim, num fio condutor, numa prosa narrada por diferentes perspetivas. Ai estes pensamentos que moldam o nosso estado de espírito e com eles construímos realidades que existem para nós, para aquele nosso mundo vivido que por vezes teima em ultrapassar a realidade.
Ela, de confiança inabalável, de serenidade transformada, de empatia infinita, constrói um mundo novo de aceitação.
Por vezes responde, zanga-se, questiona e confronta, todas as fantasias faladas. Ideias de passados marcantes que voltam como um gira-discos riscado. Vezes e vezes sem conta resignificando, resistente à mudança, mas aberta a ouvir. Ela proporciona a mudança interna que o ego teima em manifestar. Ela, desenleia tantas vezes este nó de dilemas. Lança uma carta branca, uma bandeira de paz, uma ponte de união dos mecanismos de defesa tão infantis. O seu pensamento de fada, faz pri lim pim pins às emoções. Trata-as por tu e com coragem enfrenta-as. Tantas vezes penso nela.
No dia-a-dia do divã, desmistificamos os fantasmas do passado, que em jeito de Jack Sparrow, assolam--nos no presente. Que presente é este? Apenas fruto de vivências experimentadas? No presente, o momento surge como o aqui e o agora do fazer diferente, do deixar para trás e construir o novo.
Ela, veste-se leve, numa pele camuflada de irreverência, mas também de autenticidade. Preocupada sempre com o outro, a tentar mil formas de luzes ao final do túnel lá vai criando as possibilidades que nos permitimos. Ela e o Eu, uma dicotomia dançada, com emoções transferidas, numa música de altos e baixos. Percorrida pela montanha escalada de emoções, que se manifestam, quando a voz cala. Ela, aquela, que sempre usa o colo como fonte de rendição.