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MEDEIA E O ESTRANGEIRO QUE HABITA EM(TRE) NÓS
Samara Ribeiro Samara Ribeiro

MEDEIA E O ESTRANGEIRO QUE HABITA EM(TRE) NÓS

Há períodos na história em que o estrangeiro deixa de ser apenas uma figura social para se tornar um “sintoma”. Não apenas alguém que chega de fora, mas uma presença que desorganiza fronteiras invisíveis: entre pertença e exclusão, familiaridade e ameaça, reconhecimento e rejeição. O estrangeiro inquieta menos pela sua diferença objetiva do que pela estranha intimidade que a sua presença convoca. Talvez porque existam encontros nos quais aquilo que se vê no outro toca precisamente aquilo que o sujeito se esforça por não reconhecer em si.

Num tempo marcado pela saturação discursiva em torno da imigração - discursos jurídicos, mediáticos, securitários e identitários - importa talvez suspender por um instante a velocidade moral do debate para interrogar uma questão mais difícil: porque é que o Outro nos afeta tanto? Que espécie de verdade se anuncia quando alguém vindo “de fora” desperta simultaneamente fascínio, hostilidade e angústia?

A Psicanálise ensina-nos que nenhuma forma de aversão é inteiramente transparente para aquele que odeia. Há sempre algo de opaco no afeto. Algo que excede a racionalidade manifesta dos discursos sociais. Freud já o intuía ao afirmar que o Eu não é senhor em sua própria casa. A consciência, tão zelosa da sua coerência, repousa sobre um solo instável, atravessado por desejos contraditórios, fantasias recalcadas e restos pulsionais que insistem em regressar. Talvez por isso o estrangeiro seja uma figura tão poderosa: porque ele comparece justamente no ponto em que a identidade vacila.

A etimologia ajuda-nos a compreender esta inquietação. O termo “estrangeiro” deriva do latim extraneus: aquele que vem de fora, o exterior à comunidade. Entre os gregos, o xénos designava simultaneamente o hóspede e o estranho, numa ambivalência reveladora. A hospitalidade continha já, silenciosamente, a possibilidade da ameaça. Quanto ao bárbaro, era aquele cuja língua parecia ruído aos ouvidos gregos: um corpo falante cuja palavra não se deixava traduzir. Talvez toda a alteridade comece precisamente aí: no instante em que a linguagem do outro deixa de garantir reconhecimento.

Freud aproxima-se deste território em 1919, no célebre ensaio Das Unheimliche. Traduzido como “o estranho-inquietante” ou “o infamiliar”, o termo carrega uma ambiguidade decisiva. Heimlich refere-se ao doméstico, ao íntimo, ao familiar; mas o próprio vocábulo contém também o sentido daquilo que permanece escondido, secreto. O unheimlich emerge quando algo outrora familiar retorna sob uma forma estranha. Não é o absolutamente desconhecido que produz angústia, mas sim aquilo que antes era familiar, mas que por alguma razão foi recalcado e que, agora, à revelia do sujeito, retorna.

O inquietante nasce quando o sujeito se confronta com algo de si próprio que julgava ultrapassado, dominado ou esquecido.

É por isso que certas experiências produzem uma sensação tão particular de desconforto: não porque sejam totalmente exteriores, mas porque introduzem uma fissura na ilusão narcísica de unidade. O estrangeiro não ameaça apenas o território; ameaça a ficção de identidade estável sobre a qual o sujeito moderno tenta sustentar-se.

Julia Kristeva (1994) formula esta hipótese de maneira exemplar ao afirmar: “o estrangeiro habita-nos”. A frase possui a força das formulações simples que abrem abismos. O Outro não está apenas fora de nós; existe também no interior da nossa própria vida psíquica. Há um ponto de exílio constitutivo em toda a subjetividade. Talvez seja precisamente isso que Freud descobre ao introduzir o inconsciente: somos atravessados por uma alteridade interna que escapa à soberania do Eu.

Nesse sentido, o “estrangeiro exterior” pode tornar-se o suporte sobre o qual projetamos aquilo que recusamos reconhecer como nosso. O medo do Outro nem sempre diz respeito ao Outro. Muitas vezes, trata-se do retorno disfarçado daquilo que o sujeito expulsou de si para poder constituir uma imagem minimamente coerente de identidade. Não por acaso, as sociedades tendem a construir certas figuras como depositárias privilegiadas da angústia coletiva. A história mostra-nos repetidamente este mecanismo: minorias étnicas, migrantes, mulheres, corpos racializados, pessoas LGBT+, dissidentes. Há sempre alguém convocado a ocupar o lugar da ameaça necessária à coesão imaginária do grupo.

Freud chamou a isto “narcisismo das pequenas diferenças”. A agressividade social raramente dirige-se ao radicalmente distante; ela volta-se, sobretudo, contra aquele que é suficientemente próximo para revelar a precariedade das fronteiras identitárias. O ódio nasce frequentemente da semelhança intolerável.

É neste ponto que a tragédia Medeia, de Eurípides, permanece desconcertantemente contemporânea. Medeia não é apenas estrangeira. É mulher, bárbara, feiticeira, exilada, mãe e assassina. Habita Corinto sem jamais ser plenamente reconhecida como parte dela. A cidade tolera-a enquanto útil ao poder masculino; mas o seu corpo permanece marcado pela exterioridade.

Importa recordar que foi Eurípides quem introduziu o filicídio no mito (Vernant, 2002). Em versões anteriores, os filhos de Medeia morrem, mas não pelas suas mãos. Ao atribuir-lhe esse gesto extremo, o dramaturgo radicaliza a sua posição de alteridade. Medeia torna-se uma dissidente, ou melhor, torna-se aquilo que não pode ser assimilado pela ordem simbólica da cidade. Ela encarna o excesso, a hybris, a desmedida. Talvez seja precisamente isso que torna a personagem tão perturbadora: Medeia escapa às categorias tranquilizadoras através das quais a cultura procura domesticar aquilo que lhe é estranho.

Estrangeira, deslocada e irredutível à ordem da pólis, ela ocupa uma posição de alteridade radical: ama, abandona, trai, deseja, destrói. A sua violência não ameaça apenas os vínculos familiares, mas desestabiliza as fronteiras simbólicas que sustentam a comunidade e definem quem pertence a ela. Nesse sentido, Medeia aproxima-se daquilo que a psicanalista Maria Rita Kehl (1996) descreve como uma alteridade constitutiva - simultaneamente desejada e temida, necessária e excluída - cuja presença revela os limites e as contradições da própria cultura que a rejeita. A mulher, tal como o estrangeiro, frequentemente ocupa o lugar daquele que ameaça a estabilidade da ordem simbólica precisamente por revelar os seus limites.

Diante disso, percebe-se que o aspecto mais trágico da experiência migratória não reside apenas na exclusão social ou na rejeição imposta pela comunidade de acolhimento. A condição de estrangeiro introduz uma fratura mais profunda, que atravessa a própria relação do sujeito consigo mesmo. Ao afastar-se da língua, dos códigos culturais e dos significantes que organizavam a sua inscrição no mundo, rompe-se parte da continuidade simbólica que sustentava a sua identidade. O migrante passa então a habitar uma zona de deslocamento permanente, na qual já não se reconhece plenamente nem na imagem que o Outro lhe devolve, nem nos referenciais que antes lhe garantiam pertencimento. Portanto, há uma forma particular de solidão em tornar-se ilegível.

Os autores da clínica intercultural descrevem frequentemente esta experiência como desterritorialização psíquica. Não se perde apenas um território geográfico; perde-se também uma certa gramática de existência. O migrante descobre que os nomes através dos quais organizava a sua identidade deixam de produzir o mesmo efeito no novo contexto. E, paradoxalmente, quando regressa ao país de origem, encontra também ali uma estranheza inesperada: aquilo que permaneceu na memória já não coincide com o real.

O estrangeiro acaba por descobrir que o exílio não é apenas uma condição geográfica. É também uma experiência subjetiva.

Num mundo cada vez mais obcecado com fronteiras identitárias, talvez a Psicanálise conserve precisamente esta função ética: recordar que o sujeito humano não coincide inteiramente consigo próprio. Há sempre um resto opaco, um núcleo não assimilável, uma alteridade íntima que escapa ao domínio consciente.

Contra as promessas contemporâneas de transparência, pureza e estabilidade identitária, a figura do estrangeiro produz estranhamento, em parte porque desorganiza a ilusão de uma comunidade homogénea e plenamente coincidente consigo mesma. A sua presença evidencia que toda identidade coletiva se constitui por meio de operações de inclusão e exclusão, isto é, pela delimitação contínua entre aquilo que pode ser reconhecido como pertencente e aquilo que é situado no campo da alteridade.

O estrangeiro, nesse sentido, não representa apenas um elemento externo ao corpo social; ele torna visível o caráter instável e contingente das fronteiras simbólicas que sustentam qualquer pertencimento.

Referências

Freud, S. (2019). O infamiliar [Das Unheimliche] (E. Chaves & P. H. Tavares, Trads.; obra original publicada em 1919). Autêntica.

Kehl, M. R. (1996). A mínima diferença. Imago.

Kristeva, J. (1994). Estrangeiros para nós mesmos. Rocco.

Vernant, J.-P. (2002). As origens do pensamento grego (Í. B. B. da Fonseca, Trad.). Difel.

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Ela (testemunho de uma Psicanálise)
Carina Alentado Carina Alentado

Ela (testemunho de uma Psicanálise)

Entro dentro da sua porta, pintada de branco e com linhas finas. A hora passa a correr e por entre conversas e neste corte e costura das palavras, apercebo-me da sua fortaleza. Com um olhar doce e cheio de esperança dá as boas-vindas às minhas fragilidades.

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Sublime
Rita Marta Rita Marta

Sublime

Se o poema não serve para dar o nome às coisas
outro nome e ao seu silêncio outro silêncio,
se não serve para abrir o dia
em duas metades como dois dias resplandecentes
e para dizer o que cada um quer e precisa
ou o que a si mesmo nunca disse.

(António Ramos Rosa)

Não será fácil falar da ideia de Sublime nos tempos que actualmente assaltam o mundo em que vivemos: tempos de violência, de sofrimento, de injustiça, de fealdade humana, de um sentimento de impotência perante um mundo governado ao sabor da omnipotência.

Poderia eventualmente utilizar o meu pensamento racional para pensar no conceito de Sublime, mas de nada adiantaria, pois parece-me impossível pensar no sublime sem recorrer a uma experiência emocional e subjectiva, tal como é difícil pensar na Psicanálise sem ter passado por ela. 

Porque Sublime é, antes de mais, uma experiência emocional estética que implica sempre o encontro com o Outro, encontro com um objecto externo― uma obra de arte, uma relação humana ― que ressoa no objecto interno.

Com origem no latim, a partir do termo sublimis, termo formado pela junção de duas partes: sub ― «debaixo» ou «abaixo» ― e limis ― «limite», «limiar» ou «altura», a ideia original da palavra é algo que está próximo do limite superior, elevado, alto, tanto no sentido físico quanto no sentido figurado. Com o tempo, «sublime» passou a ser associado àquilo que é grandioso, exaltado, extraordinário, ou que desperta uma sensação de admiração profunda.

Sublime tem assim qualidades subjectivas, ao resultar de uma vivência do sujeito quando este experimenta uma imersão numa experiência simultaneamente estética e emocional: uma música de Bach (e de tantos outros) maravilhosamente escrita que nos faz sentir mais próximos de algo simultaneamente espiritual e belo, que desperta aquilo que de mais bonito (perfeito e autêntico) existe em nós, que nos eleva para lá da experiência «terrena» da realidade quotidiana, onde bom e mau, bonito e feito aparecem permanentemente entrelaçados. O próprio corpo, ao contrário do que postulou Descartes, acompanha este sentimento de elevação espiritual, com um arrepio cutâneo, acompanhando a vivência do Sublime através de uma «elevação» dos pêlos dos braços.

Ou uma pintura extraordinária, ou um poema que põe em palavras aquilo que não somos capazes de dizer, ou um filme espantosamente bem realizado, que nos situa perante o reencontro com pensamentos ainda não pensados. Ou uma dança, onde os corpos tomam formas anteriormente impossíveis de imaginar, que nos surpreende e nos conforta com a beleza do humano.

Uma experiência estética desencadeada por uma grande obra de arte, sempre acompanhada de uma experiência emocional e humanista. A experiência de estar perante um objecto ou acontecimento sublime desperta aquilo que de mais elevado, espiritual e emocional encontramos em nós e transporta-nos para um sentimento de júbilo, admiração, contentamento.

Mas porquê o contentamento? 

Porque Sublime vai para lá do Belo. Ainda que ambos impliquem um olhar estético e subjectivo sobre o objecto, em Sublime existe uma experiência de reconhecimento, isto é, de encontrar algo de verdadeiro e nosso, de apropriação do objecto, do sentimento de ter chegado a uma terra conhecida e reencontrada?

Sublime não faz parte do léxico psicanalítico, ao contrário do conceito de Sublimação (Freud), que deriva etimologicamente dele. Mas a experiência emocional vivenciada na experiência «sublime» no encontro com o objecto leva-nos a dois conceitos fundamentais da teoria psicanalítica ligados ao desenvolvimento emocional: o «objecto estético», de Meltzer, e a «ilusão», de Winnicott.

O objecto estético 

Donald Meltzer (1988) introduziu o conceito de «objecto estético» para descrever a experiência inicial do bebé em relação à mãe: a mãe é percebida como um objecto de intensa beleza e fascínio, despertando no bebé um profundo desejo de conhecer e compreender o seu mundo interno. 

A exposição à beleza e ao mistério do «objecto estético» gera no bebé o que Meltzer denominou de «conflito estético» ― a tensão entre a admiração pela beleza externa da mãe e a curiosidade sobre o seu interior desconhecido. Será a capacidade de suportar este desconhecido que levará à sua simbolização e criação deste objecto no interior. 

Podemos assim imaginar que a criação artística estaria directamente ligada à recriação deste objecto estético na realidade? 

E será a experiência do «Sublime» perante o encontro com esse objecto a experiência do reencontro com o objecto primário internalizado?

Mas não será só no encontro com a Arte que o Sublime acontece. 

Também no encontro amoroso/sexual, e na vivência de completude (e não simbiose) que é experimentada em determinados momentos. Quando o encontro com o outro cria um encontro com o próprio, quando o orgasmo é acompanhado de um sentimento de ter mergulhado no outro, mas também naquilo que de mais autêntico o sujeito vive relativamente a si próprio. Um êxtase/momento estético que resulta do encontro Eu e Outro, simultaneamente externos e internos.

E finalmente, no encontro psicoterapêutico/psicanalítico. Quando analista e paciente criam em conjunto um terceiro ― objecto estético ―, quando o paciente mergulha e reencontra uma verdade sobre si próprio, que lhe faz tremer a voz e correr as lágrimas, ao mesmo tempo comovendo profundamente o analista. Este será o êxtase ― Sublime ― psicanalítico, quando as «peças» ― partes separadas do sujeito ― se encaixam, não de forma racional, mas emocional/vivenciada. Seja na sequência de uma interpretação (emocional) que brota do lado espontâneo/vivenciado (e não racional) do analista, seja na sequência de um caminho associativo feito pelo próprio paciente.

A Ilusão 

Podemos também ligar a experiência do Sublime ao conceito de ilusão de Donald Winnicott (1971). Igualmente ligada à experiência primária na relação com o objecto materno, a mãe suficientemente boa (presente e atenta) antecipa as necessidades do bebé (físicas e emocionais) de forma tão precisa que ele vive a ilusão de omnipotência — acreditando que o seu desejo cria a satisfação. A ilusão é assim a experiência omnipotente do bebé, ao acreditar que as suas necessidades e desejos são imediatamente e magicamente satisfeitos, como se ele próprio tivesse o poder de criar aquilo de que precisa. 

Ilusão fundamental para que, com o tempo, e à medida que percebe que nem tudo acontece de acordo com a sua vontade, o bebé comece a enfrentar a desilusão, ou seja, a compreensão de que existe um mundo externo independente dele, possibilitado por uma mãe suficientemente boa, que está presente, mas que também permite pequenas frustrações, ajudando o bebé a desenvolver a capacidade de lidar com a realidade.

Não será a experiência momentânea de Sublime o retomar dessa ilusão primária? A ilusão de que aquele objecto encontrado é simultaneamente criado pelo próprio?

O bebé com fome imagina o seio que o satisfaz, e ele surge; o sujeito, perante a experiência do Sublime, sente ter encontrado algo que ele próprio procurava?

Diríamos então que a experiência do Sublime ― a experiência do êxtase, do belo, do fascínio ― experimentado perante o encontro com um objecto (artístico ou amoroso) reproduz uma experiência vivida com o objecto primário? Seria assim um reviver, uma repetição, de uma experiência primária reencontrada? 

Uma experiência «transicional», entre a fantasia e a realidade? A experiência de encontrar na realidade o objecto interno perdido na fantasia?

A Idealização

De distinguir Sublime e Idealização: apesar de ambos trazerem uma vivência de admiração na relação com o objecto externo, na Idealização (Freud, 1914; Klein, 1957/2006) ― mecanismo através do qual as partes boas e más do objecto interno são clivadas, sendo as partes boas projectadas no objeto externo ― o objecto não é sublime, é perfeito e inalcançável. 

A experiência da Idealização separa o objecto do sujeito. Ao contrário, a experiência do Sublime permite a aproximação entre sujeito o objecto.

A Sublimação

De estranhar então que a Psicanálise não se tenha debruçado mais profundamente sobre o conceito de Sublime, e tenha unicamente utilizado a sua derivação léxica:  a Sublimação.

Freud (1915), além do recalcamento (submersão inconsciente dos impulsos não aceites), introduz a Sublimação como outro dos destinos fundamentais das pulsões, sujeitas a transformações de forma que sejam aceites pelo próprio: será por exemplo a transformação dos impulsos agressivos em actividades de competição, ou a curiosidade sexual em curiosidade científica. 

Sublimação deriva do verbo latino sublimare, que significa «elevar-se», «erguer-se», «tornar sublime». Esse verbo vem da mesma raiz de sublīmis, reforçando a ideia de ascensão ou transformação para um estado superior.

Sublimação é assim a transformação para um estado superior, seja na Química, na passagem directa do sólido para o gasoso, seja na Psicanalise, através da conversão de impulsos não aceites pelo próprio/pela sociedade em realizações culturalmente valorizadas. 

Quanto ao artista, este seria aquele que sublima ao possibilitar o retorno da vida de fantasia para a realidade? 

A arte serve o princípio do prazer, mas encontra o caminho de retorno à realidade.

Por outras palavras, será a zona intermediária entre a fantasia e a realidade (Winnicott) que, quando ressoa numa experiência do sujeito de prazer/ilusão/estética com o objecto primário, produz a experiência subjectiva de Sublime.

Sublime está por isso profundamente ligado à vivência de esperança ― o bem vai vencer o mal, o objecto perdido/decepcionante poderá ser reencontrado/reparado na realidade ―, e de ilusão ― acredito que vou ser capaz de transformar/criar aquilo que desejo/necessito/acredito. 

Talvez por isso, numa entrevista sobre o seu mais recente livro (A Cegueira do Rio, 2024), Mia Couto tenha dito, a propósito da recente eleição americana e do estado do mundo, que se sentia deprimido, impotente, ao constatar que os valores ― ilusões ― defendidos e construídos na segunda metade do século XX pelas instituições democráticas estavam a ser destruídos: «O mundo em que acreditámos está a ruir», disse.

Esta é a experiência da desilusão, do desencanto, do des-sublime, que vemos também na clínica em alguns estados depressivos, nos quais a vivência infantil de perda da ilusão inicial foi tão brusca e intensa ― traumática ―, que matou internamente a possibilidade de reencontro/reparação com o objecto primário perdido, impossibilitando a vivência do Sublime.

Será porventura a relação psicanalítica aquela capaz de recriar a ilusão perdida, de recriar o objecto intermediário, de criar o sentimento de potência ― aquele que existe entre a omnipotência e a impotência.

Não só individualmente, mas colectivamente, será esse sentimento de potência, encontrado na área transitiva, e possibilitado pelos diversos reencontros ao longo da vida com a experiência de Sublime, revivido com o objectivo primário/estético, que fará o mundo avançar.

fotografia: Jorge Rolão Aguiar

REFERÊNCIAS

Freud, S (1914). Sobre o Narcisismo. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, Vol. XIV. Imago.

Freud, Sigmund (1915). As pulsões e suas vicissitudes. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, Vol. XIV. Imago.

Klein, M. (1957/2006). Inveja e Gratidão e Outros Trabalhos. Obras completas de Melanie Klein, vol 3. Imago.

Meltzer, D. & Williams, M. (1988). The Apprehension of Beauty: the role of aesthetic conflict in development, art and violence. Clunie Press.

Winnicott, D. W. (1971d). The place where we live. Playing and reality (pp. 104–110). Tavistock Publications. 

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Psychoanalysis under occupation?
Katarzyna Akhtar Katarzyna Akhtar

Psychoanalysis under occupation?

A couple of days ago, a random email landed in my inbox implying that I might be at risk of being made redundant. Surprisingly, the message hadn’t been sent by HR but by a scientific journalist who believes that AI systems are already so superior in their capabilities, that they will, in time, replace flesh and blood therapists. He proposed the term ’super clinician’, a cognitive agent, that mimics a human subject and is able not only to simulate empathy but also to provide personalised feedback and tailor-made support for each unique patient. In his opinion, we, the clinicians, are becoming extinct and he suggests that the sooner we accept the new reality, the better.

There’s no denial that in recent years digital technologies and advanced AI algorithms have become a huge part of our daily living. As a result, our lives have drastically shifted in the way we engage, socialise and interact with others and the world. In the mental health field, psychoanalysis has been overtaken by the rise of evolutionary psychology, neurological explanations, pharmacology, short-term therapy and cost benefit treatments. In 2023 the FDA awarded a Breakthrough Device Designation to a chatbot named ‘Woebot’ for the treatment of postpartum depression. Seemingly, the behavioural health chatbots are now able to provide therapeutic services that would otherwise have required professional assistance.

The idea of a cognitive AI agent impersonating a therapist seems absurd, yet I can’t help but feel deeply unsettled by this. When I try to contemplate on the current and future reality, my mind goes into overdrive. It disturbs me thinking that we have been actively and determinedly narrowing our minds. We prioritise synthetic relationships over meaningful emotional connection and seek alternatives to human contact. Does the emergence of the AI clinician mean that I now must move over and make room for ‘the new kid on the block’? Does the arrival of a disembodied, virtual surrogate mark the end of psychoanalysis? Are we really the dying species?

The dystopian scenario feels murky, violent and cataclysmic. I envisage the tanks and troops of artificial intelligence attacking humanity. I picture the AI agents taking ownership of our minds, memory and our future. The feeling of impotency against the superiority of AI makes me think of patriarchal violence and the colonisation. This too, has a flavour of legalised kidnapping and being held hostage without charge or trial.

It took some time before the overwhelming feeling of powerlessness and entrapment had worn out. But when it did, I at once regained my ‘self’, my mind and my ability to feel and think freely and critically. I reconnected with my humanity and humanness. In this reflective space, I understood that an algorithm will never be a human, no matter how convincingly it mimics one. A ‘super clinician’ will not have a consciousness or self-awareness and won’t be able to replicate the hidden complexities of human interaction. It will never be able to patiently investigate and unearth intricate layers of human mind. I believe that an AI agent’s common sense or logic will overlook the subtleties of the intuitive work of analysis. A synthetic therapist will never be able to hold a patient in mind in the way only a human is able to. It won’t be able to replicate kindness or the healing power of witnessing human distress. We, ‘the endangered species” believe in freedom of non-constrained thinking, we follow our intuition, we constantly wander, explore and seek new insights and barely settle for what’s in front of us. And those qualities are irreplaceable.

Since I no longer feel terrorised by the emergence of the AI troops, I am more

able to see the current reality in a less threatening light. Without magical thinking or denial, I can safely say that despite the uncertainty I am hopeful for the future. Just because the tech industry routinely exaggerates and hypes the AI capabilities and makes us feel that the end product will be God-like machines, it doesn’t mean that we should collude with their fantasy. We can’t succumb to the idea that those machines will evolve as a society. To survive and advance as the human race we need to preserve our humility and individuality, we have to continuously and consciously examine ourselves and make meaningful contributions to society. We ought to work collaboratively and cultivate inclusion and hold high ethical considerations.

This of course poses another question whether we, the human race, are able to coexist with the technology that is advancing at an unprecedented pace? Are we capable of entering a mutually enhancing, dialectical relationship with the AI agents? Can we ensure that our values align and that our freedom and well-being is protected? Peace, in essence, is not an ordinary state of mind. Human beings are not easily inclined to harmony and co-operation. Violence as a means for dealing with conflicts appears to be a long-learnt habit or ritual and it tends to repeat itself if not understood and worked through.

So, could we find a way of living together under the same roof without the risk of killing each other? Can we manage the conflict in a constructive, creative and non-coercive ways? Perhaps we could think of ourselves as one of those high conflict couples that come to therapy to seek containment and resolution to their struggles. The ultimate goal for them would not be to eliminate conflict but to create a healthier, more adaptive way of managing and resolving it while accepting each partner's uniqueness.

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